segunda-feira, 7 de março de 2011

Tecendo o pai

Pais são pais não há diferença, afirmaria o ignorante em sua reclusão. Até o início do seu relacionamento com a barriga de sua esposa pode ser que haja seres reprodutores que pensem desta forma, até tentam manter certa preocupação, mas não conseguem. Por quê?

Não são pais em sua essência, na mais pura significação, pois pai é poesia e filhos são os versos que formam este poema. Que casamento! Esse emaranhar-se nasce com os batimentos cardíacos impostos pela vida que se forma nos primeiros dias após a concepção. Suspiros, suor, felicidade, misturam-se a responsabilidade que nos prepara para um novo momento, glorioso, esplendoroso, magnífico... E à medida que o tempo passa o amor poético aumenta, adocica-se, dá-nos energia.

Lembro-me das noites em que chegava e lá estava meu amor Priscila e sua exuberante barriga, que parecia sorrir a espera de algumas palavras balbuciadas pelo pai para que a futura Beatriz se exaltasse em pulos, cambalhotas. Ela sabia que seu pai se aproximava. Isso a Ciência não explica por ser racional, mas também pudera, era o carinho emanado por aquele tríduo que fazia manifestar-se ali o amor puro, enfático, essencial.

Os dias se passavam, a hora de conhecer aquela carinha, que tinha o nariz do pai (e depois mais algumas coisinhas) se aproximava. Contava os minutos, acariciava a barriga, pedia a Deus que tudo corresse bem. Beatriz nasceu, e o céu todo se acendeu, ela nos ascendeu. Perfeita! Não seria diferente, fruto do mais doce e verdadeiro amor!

Pegá-la... Aquele ser tão pequeno, delicado, quanto medo. O primeiro banho, que demorou a ser dado por mim, a primeira troca de fraldas, as primeiras colheradas de comida, parece que o pai faz tudo mais devagar. Parcimônia? Não sei, mas comigo achava que a mãe era vital. Furtar-me jamais, talvez medo. Mas Beatriz me compreendeu. Sorria quando eu chegava do trabalho, mas chorou muito, pois foram várias noites em que chegava e lá estava ela dormindo. Saía para o trabalho e lá estava ela dormindo. Apenas nos finais de semana nos correspondíamos com mais intensidade. Nem por isso deixamos de nos amar, era difícil, mas isso pareceu engrandecer cada vez mais nossa paixão. E as críticas por parte da torcida adversária foram constantes. Chutamos a bola pro mato, pois o jogo era de campeonato. Não dei ouvidos, nosso amor era maior, eterno.

Hoje a vejo caminhando, falando , relatando histórias por ela criadas. Seus carinhos sobre a minha face, seus beijos, palavras inesperadas. Quanta felicidade... Posso não ser o pai perfeito, esforço-me, porém Beatriz a cada dia me fortalece, dá vida ao ato paternal, ensina-me a educá-la, sou um aprendiz, ou seja, sou um pai em formação. Formar-me-ei junto dela, com ela.

Um comentário:

Priscila Sant'Anna: disse...

Para a melhor filha,
O melhor pai.
Ela não poderia ter um melhor.
E eu não poderia tê-la com outra pessoa.
É tu, amor.
Sempre.