terça-feira, 22 de janeiro de 2013

No meio do caminho havia muitos exemplos


Queria escrever... Foi a gota d’água. Como poderia durante tantos dias evitar me aproximar do papel? Tudo parecia estranho... O lápis, a caneta, a folha dona de linhas tortas, o cheiro dos livros em que me inspirava para tecer os meus artigos, tudo se encontra desgastado, chato, diferente do que acontecera há exatas duas semanas.
                Gente: eu sempre li, escrevo oficialmente para os periódicos desde os meus dezesseis anos e nunca senti aversão dos meus instrumentos de trabalho. O médico que é médico não pode deixar a profissão, depois de alguns anos, simplesmente pelo fato de contrair aversão ao sangue. Ele, o sangue, faz parte deste processo. Está embutido na massa que lhe é oferecida, o cuidado com o corpo humano; assim, também, acontece com o gari, com o coletor de detritos humanos, caso possua medo de pegar um saco de lixo ou mesmo aquele que se encontra espalhado, caso não o colete está “ralado”, é desemprego na certa. Minha mãe durante boa parte de sua vida desenvolveu diversas funções para ser criada, pelos seus pais, e para criar aos seus filhos aos quais eu me incluo. Passou pela coleta de laranja, limão, algodão, amendoim, goiaba, tomate; também fez da profissão diarista nosso “ganha pão”. Na primeira iniciou-se aos sete anos, meio sem saber o que deveria realizar, mas aprendeu, na “marra”, acordando antes do sol nascer e retornando quando ele dava lugar à Lua. Foi picada por mosquitos, teve febre, vômitos, dores, mas teve que continuar lidando com o seu ofício; já como diarista eu me lembro da sua garra, mesmo grávida, limpando à casa das suas clientes. Quantas vezes estive junto dela observando puerilmente a sua jornada hercúlea. Ela firme, forte, persistente e o dinheiro do leite ao final do dia. Ela não desistiu...
                Meu pai, dono de mãos lisas, não chegou a conhecer um cabo de enxada, porém não deixou de trabalhar. Entregava as roupas confeccionadas pela minha avó Carmem para suas respectivas donas isso na sua primeira década de vida. Estudou, não se tornou doutor como almejavam os pais da época, mas se fez profissional, uma pessoa de talento. Lia incansavelmente, escrevia nas mesmas proporções e fez disto sua profissão. Tornou-se jornalista, viajou pelo Brasil destinado a trabalhar, mas sempre estava pronto a escrever e a ganhar o peixe através do seu estilo jornalístico impagável. Está certo que teve os seus momentos de ausência da razão, porém não deixou a escrita de lado. Mostrou que era guerreiro, bravo, lutador. Que satisfação a minha ao ver o nome do meu pai sendo falado com orgulho pelo senhor Galeno Amorim, jornalista, escritor, presidente da Biblioteca Nacional ou mesmo pelo Eraldo do telejornal apelidado de Jornal Nacional. Pois é... E minha mãe sendo homenageada pelas suas colegas de Ensino Médio ao final do seu último ano. Era mais uma formanda depois de tanto esforço pela sua vida. E quando as suas companheiras de trabalho, minhas colegas professoras, apresentam-me Ela (minha Mãe) como referência pela sua humildade, simpatia e honestidade...
                Agora, de que valerá minha vida se eu tiver aversão aos meus instrumentos de trabalho? Já chega! Tive exemplos demais para desistir no meio do caminho...

Um comentário:

Luis Carlos Borges dos Santos disse...

Gosto de ler teus artigos pois sempre parte do concreto da realidade continue escrevendo ....
abraços
Luis Carlos